Drogas, o problema é seu?
Que o AA (Alcoólicos Anônimos) me permita a distorção infame de sua frase,
mas no Ceará "Se seu problema é usar drogas, o problema é seu, se seu
problema é parar de usar drogas, o problema também é seu". O fato é que,
quando se procura políticas públicas para o atendimento à criança e ao
adolescente usuários de drogas é isso o que se constata, a não oferta ou a
oferta irregular do serviço.
Foi essa a conclusão a que se chegou no Fórum DCA, articulação que congrega
entidades que atendem crianças e adolescentes em situação de risco, quando
tentamos levantar as opções de tratamento colocadas à disposição do
adolescente drogadicto em Fortaleza, ressaltando que se falarmos de crianças
(até 11 anos), meninas ou moradores de rua essa situação será ainda pior,
pois, para eles a possibilidade de ter acesso a um tratamento com internação
é praticamente nula.
Os relatos apresentados por representantes de programas ligados ao Juizado da
Infância e da Juventude e por conselheiros tutelares são dramáticos. Jovens
que venceram a mais difícil das etapas, reconhecendo a dependência e pedindo
ajuda, saem com suas famílias de órgão em órgão pedindo ajuda, e não a
encontram. Faltam os programas públicos que lhes possam atender, faltam os
convênios e apoios do poder público a instituições privadas com experiência
no atendimento.
Esse Fórum redigiu documento onde falamos sobre a necessidade da garantia de
internação para quem dela necessite, ressaltamos a importância da extensão
do atendimento para mulheres, crianças e adolescentes em situação de rua e
adolescentes privados de liberdade, sugerimos que o trabalho de prevenção
seja feito por jovens capacitados para tal, já que possuem sobre nós uma
grande vantagem, a facilidade de comunicação com outros jovens. Nossa
expectativa é de que esse documento possa subsidiar a formulação de políticas
públicas de atendimento por parte dos Conselhos Criança e do Adolescente e
Conselho Antidrogas.
Que a campanha da fraternidade, que tem as drogas como tema para 2001, nos
traga bons ventos! Afinal esse problema não é só do dependente, é de sua
família e da sociedade é do poder público, é, enfim, de todos nós.
Neiara de Morais - advogada do CEDECA/Ceará
09 de março de 2001