Chuva, escola e pobreza

Queremos chamar atenção para como Fortaleza tornou-se injusta para um segmento da
população que, por dever ético e legal, deveria ter nossa prioridade absoluta: crianças e
adolescentes.

Crianças e adolescentes morreram em função das últimas chuvas. A responsabilidade
não é ambiental ou climática. Estamos no século XXI e temos todas as condições
tecnológicas para não morrermos mais de um fenômemo como este. Além do mais, as
vítimas são todas de classes economicamente exploradas, o que reforça que o problema
não é a intensidade das chuvas.

Estamos na segunda quinzena de abril. Até agora há milhares de meninos e meninas
que não começaram a estudar. As justificativas revelam a ausência de compromisso
político efetivo com o direito à educação de qualidade. É bom lembrar que todas as
vertentes ideológicas incluíram em seus programas políticos a educação como
prioridade. No entanto, a falta de credibilidade da atual administração municipal para
resolver a situação emergencial e o descaso com o direito à educação pública chegou a
tal ponto que mecanismos jurídicos tiveram que ser acionados, inclusive com o pedido
de responsabilização criminal do Prefeito, para dar termo a esse escândalo.

A ausência de um planejamento público em nossa cidade que promova a democracia
participativa, a inclusão social e o equilíbrio ambiental já vem sendo objeto de
denúncias e reivindicações há, pelo menos, uma década. Neste período, os modelos de
gestão governamental em Fortaleza e no Ceará continuaram inalterados, sempre
consolidando a concentração de renda, uma vergonhosa tendência nacional de aumento
da desigualdade.

Até quando assistiremos ao afogamento de crianças em áreas de risco, sem renda, sem
escola e sem amparo, quando o mínimo seria que tivessem direito à sobrevivência
digna, a uma boa escola e a brincar impunemente sob a beleza da chuva?

As redes de solidariedade que hoje se fazem importantes expressam que nem todos
ficam acomodados diante das tragédias das maiorias sociais. No entanto, somente uma
solidariedade que se faça ator social e político, com firme objetivo na universalização da
cidadania poderá alterar as causas estruturais da pobreza e da exclusão, que atingem
em primeiro lugar cidadãos em condição peculiar de desenvolvimento.

Renato Roseno é coordenador do CEDECA-Ceará
17.04.2001

desenvolvido por culturalivre.org